sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Que São Tipos Ideais e Qual sua Importância na Teoria Weberiana


Este texto é um resumo, já colocado em forma texto acadêmico, elaborado por mim estudando minhas disciplinas introdutórias do primeiro semestre do curso de direito, que envolviam algumas noções iniciais de sociologia. Deixo-o aqui para que possa de alguma forma contribuir com quem esteja se ocupando do estudo do mesmo assunto, bem como para que seja devidamente criticado em seus eventuais equívocos.


Basicamente, são dois os problemas que levam Weber a pensar nos chamados tipos ideais. Antes de dizer diretamente o que esses tipos são, parece mais conveniente e mais didático explicar quais são esses dois problemas e como eles estão vinculados à concepção weberiana de ciência.
Como estudioso alemão dedicado que era, Weber não poderia ter deixado de se ocupar das questões do seu tempo. Naquela época, segunda metade do século XIX, uma das principais discussões era exatamente sobre qual seria o melhor método para as ciências sociais[1]. Uma das propostas era de que o melhor método seria justamente aquele que mais aproximasse as essas ciências das ciências da natureza. Seria, portanto, um método baseado na formulação de leis gerais e abstratas, como a lei da gravidade. Weber se opõe terminantemente a esse método. No seu pensar, o diferencial das ciências socias seria o fato de, no âmbito das suas pesquisas, as particularidades terem uma importância muito maior do que nas ciências naturais. Explica-se: quando se trata da química, da biologia ou da física, uma teoria é tanto melhor quanto mais fenômenos for capaz de explicar ao mesmo tempo. Nas ciências sociais, por outro lado, o que se busca não são determinações genéricas e abrangentes, mas sim o conhecimento acerca de aspectos particulares e específicos. Quando o antropólogo se dedica a estudar uma tribo indígena, sua intenção não é extrair conclusões válidas para toda e qualquer tribo, mas sim conseguir delimitar da melhor forma possível qual é o modo de vida, quais são as tradições e quais são os hábitos que se encontram ali.
Assim, diz Weber, ainda que fosse possível fazer sociais estabelecendo relações de causa e efeito entre fatos; ainda que fosse possível formular enunciados do tipo “se uma sociedade passar por uma crise econômica, ela passará por reviravoltas políticas”, isso em nada contribuiria no sentido de explicitar as individualidades e especificidades dos fenômenos sociais. Aparece, então, o primeiro problema: encontrar uma metodologia capaz de exprimir as particularidades.
O segundo problema tem a ver com a linguagem usada. O trabalho de um cientista que lida com indivíduos em sociedade, como o de qualquer cientista, exige objetividade e precisão. No entanto, vários do termos pertencentes ao vocabulário típico desse profissional não têm significados de precisão satisfatória, sobretudo no âmbito da Sociologia, da Ciência Política, da Antropologia e de outras disciplinas afins. Quando se usa o termo capitalismo, por exemplo, aquilo de que se fala é um modo de produção o qual assume características diversas e particulares a depender de onde ele se instale. São tantas e tão variadas as suas formas a ponto de se tornar difícil dizer o que exatamente se está designando quando a palavra é usada. Prova disso é existência de um descordo entre historiadores sobre se o chamado mercantilismo já era propriamente uma manifestação do capitalismo ou apenas uma fase anterior a ele. O mesmo ocorre com o feudalismo, uma vez que se discute se ele existiu ou não em Portugal.
Por outro lado, também não seria possível a um cientista elaborar um conceito que contivesse absolutamente todas as informações possíveis a respeito de um dado objeto. Com efeito, qualquer espécie de produção conceitual implica necessariamente uma generalização em maior ou menor grau. Weber acredita que todo objeto de estudo possui conta sempre com incontáveis aspectos e formas de abordagem diferentes. Seria completamente impossível uma teoria dar conta de todos eles ao mesmo tempo. Sendo assim, ao iniciar suas construções teóricas, o cientista sempre seleciona quais partes do todo, ou seja, quais facetas do objeto, ele levará em consideração, restando excluídas todas as demais. Novamente falando sobre o capitalismo, seria completamente inconcebível um único estudo conseguir discorrer ao mesmo tempo sobre os seus fundamentos econômicos, sobre sua relação com a pobreza, sobre o lugar das mulheres no seu interior, sobre sua relação com o racismo, sobre sua relação com o meio ambiente, sua origem histórica, suas fases de evolução, seu estado atual e muitas outras coisas. Para se estudar tudo isso, várias empreitadas científicas, cada uma com suas finalidades e pressupostos próprios, seriam necessárias.
Ao tratar dessa problemática, Weber propõe como ferramenta metodológica para auxiliar em atividades de análises e estudos sociais os chamados tipos ideias. Um tipo ideal é uma construção racional e mental feita a partir do fenômeno estudo em si, baseada em postos de vista a respeito dele e em seus aspectos recorrentes. Dito de outro modo, um tipo ideal é uma produção imaginária do cientista que reúne características ou manifestações marcantes e mais ou menos universais de uma certa coisa em questão. A utilidade de tal construção não está no fato de ela substituir o objeto real estudado por uma versão abstrata deste, mas sim no fato de o contraste entre as duas coisas produzir observações informativas e esclarecedoras a respeito do real. Nas palavras do próprio autor,
Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista, e mediante o encadeamento de grande quan­tidade de fenômenos isoladamente dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo os pontos de vista unilateralmente acentua­ dos, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento.
Torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade esse quadro, na sua pureza conceituai, pois trata-se de uma utopia. (WEBER, 2003, p.107)


Voltemos agora ao exemplo do capitalismo. A elaboração de um tipo ideal desse modo de produção, se estamos falando do ponto de vista econômico, deveria ser feita reunindo-se e enfatizando-se vários aspectos amplos e gerais do capitalismo que se tornam evidente quando ele se faz presente na realidade. Nesse caso, o tipo ideal, ou seja, o modelo ideal do capitalismo, precisaria conter o fato de os indivíduos visarem ao lucro sempre e na maior medida possível, o fato de haver um intenso e relativamente livre fluxo monetário, o fato de haver relações bilaterais nas quais um contribui com um pagamento fixo (salário) e o outro responde com a venda de sua força de trabalho, etc. Feito isso, o resultado seria um esboço do que o capitalismo geralmente é e de como ele geralmente se apresenta. Ao se contrastar esse tipo ideal com o capitalismo no Brasil, na Índia, na China, na Suécia ou em qualquer lugar, as especificidades de cada um desses “capitalismos” se tornariam muito mais evidentes e, portanto, enriqueceriam a análise feita utilizando esse recurso feito pelo cientista. Além disso, quantos mais os indivíduos correspondessem ao perfil delineado no tipo ideal, mais se poderia prever seus comportamentos e os respectivos desdobramentos no meio social.   
O motivo pelo qual Weber chama o tipo ideal de utopia, como dito por ele mesmo, é o fato de a realidade em si não apresentar nenhum exemplo de algo exatamente igual ao seu tipo ideal. Continuando com nosso exemplo, isso significa dizer que em lugar e em momento nenhum seria possível achar um capitalismo que fosse igual ao tipo ideal criado. Não poderia ser de outra forma, pois o tipo ideal, tendo sido construído pelo ser humano, existe apenas enquanto objeto intelectual e serve apenas como um meio, jamais como um modelo de dever ser ou uma versão melhorada do objeto para cujo estudo foi criado.
Weber afirmou que, na verdade, muitos cientistas sociais já usam a metodologia dos tipos ideais nas suas pesquisas, embora muitas vezes não se deem conta disso. Quando um historiador fornece uma definição sobre o que era o regime escravista no Brasil colonial, o que ele está fazendo além de construir um tipo ideal desse regime? Obviamente, houve diversos escravos cujo modo de vida não era exatamente o mesmo que consta na definição dada. Havia escravos (poucos, é verdade), que gozavam de melhor condição por terem afinidade com seus senhores. Mas a percepção dessas exceções só se torna evidente graças ao contraste e às diferenças que elas apresentam em relação ao tipo ideal.
Ideologias e formas de pensamento religiosas só são compreensíveis graças aos tipos ideias que produzimos sobre elas. Com efeito, se tomarmos o exemplo do cristianismo, é fácil perceber como cada cristão tem uma concepção e uma interpretação pessoal sobre o que essa doutrina significa, seja pela sua vertente, pelo como foi introduzido a ela, pelas leituras que fez a seu respeito, etc. Estritamente falando, portanto, não há um cristianismo, mas sim vários, tão numerosos quanto os seus adeptos. Desse modo, a única forma de transformar o cristianismo em algo que a compreensão possa captar é reunindo seus traços frequentes sob um ou mais de um ponto de vista, criando um tipo ideal do cristianismo. Foi exatamente esse o caminho tomado por Weber ao fazer suas análises sobre o protestantismo em “A Ética protestante e o espírito do capitalismo.”
Por fim, convém dizer que a produção dos tipos ideais é o que está subjacente a todos os conceitos da sociologia weberiana. Os tipos de ação social, de dominação e todas as outras categorias com que Weber tenta compreender a sociedade nada mais são do que tipos ideais. Essa é uma observação relevante justamente porque a falta dela pode levar a grandes equívocos de entendimento a respeito da teoria weberiana. Um deles seria pensar que as descrições dadas por Weber da burocracia, do patrimonialismo e de outras categorias sociológicas são pouco demonstrativas da realidade. Ao se entender que tudo não passa de instrumentos de análise, a compreensão da obra do grande sociólogo alemão se torna muito mais fácil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUND, J. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
SAINT-PIERRE, H. L. Max Weber: entre a paixão e a razão. 3. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2009.
WEBER, M. Economia e sociedade. Brasília: UNB, 1999.                                              

______. A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais. In Max Weber: sociologia. COHN, G. (org.). 7ª. ed.. São Paulo: Ática, 2003.




[1] Ou ciências da cultura, ou ciências humanas, ou ciências do espírito, que eram os nomenclaturas geralmente usadas na época

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