segunda-feira, 15 de abril de 2019

Noções Básicas de Ética das Virtudes


Dentre todas as abordagens éticas ocidentais, a ética das virtudes provavelmente é a mais antiga. Ao lado das éticas do dever e das éticas consequencialistas, ela hoje disputa adeptos entre os filósofos e conta com fortes defensores. Nesta postagem, pretendo esclarecer brevemente algumas das principais ideias envolvidas quando se fala em ética das virtudes. Como a essa doutrina normalmente se opõem críticas específicas, ao final da postagem farei rápida menção a duas possíveis linhas de objeção a uma ética baseada em virtudes, seguida de uma possível defesa feita por um de seus mais importantes defensores contemporâneos.
Antes de tudo, é preciso dizer que, diferente das éticas deontológicas e consequencialistas (ou menos as versões mais comuns dessas duas últimas) a ética das virtudes não está preocupada exclusivamente com o agir humano. Os atos humanos importam para ela na medida em que desempenham um papel na formação da identidade de um todo maior, que é o próprio ser humano. Assim, uma ética das virtudes está preocupada, em última instância, em prescrever não uma regra para se distinguir ações boas de ações ruins, mas sim em propor um estilo de vida completo, um modelo de ser humano.
E é por esse motivo que essa abordagem ética se situa sempre sobre a questão da personalidade e do caráter. Não basta que uma pessoa aja da forma certa. É preciso também que ela tenha agido na hora certa, devido à motivação certa, com o desejo certo, assim como é preciso que ela tudo isso seja uma constante ao longo de sua vida. Ninguém é virtuoso por ter agido bem uma única vez, e sim apenas quando esse agir bem se incorpora à sua identidade e ao seu modo de ser.
A formulação mais clássica e até hoje mais famosa de ética das virtudes está em Aristóteles. É verdade que algo nesse sentido já poderia ser encontrado em Platão, já que para ele a cidade justa era aquela em que as aptidões naturais de cada um eram cultivadas de modo que cada pessoa ocupasse o nicho social apropriado para si (seja como filósofo-governante, como protetor da cidade ou como produtor) tendo como pano de fundo a razão governando as paixões. Mas a formulação mais completa sobre o que são virtudes, qual seu fundamento e como se atinge um comportamento virtuoso só foram aparecer nos escritos do famoso discípulo de Platão. E é por isso que irei me concentrar nele agora.
Um panorama completo do pensamento de Aristóteles, de modo que eu pudesse situar onde se encontra a ética dentro dele, é impossível aqui. Então irei me limitar a fazer algumas considerações sobre sua visão de mundo, que está pressuposta em sua ética, para logo em seguida passar ao nosso tema principal.
É lugar comum dizer que Aristóteles vê o mundo de forma teleológica. E o que quer dizer isso? Quer dizer, em primeiro lugar, que nessa visão tudo aquilo que existe possui uma certa finalidade, um propósito a ser realizado (telos). Para ser mais exato, em Aristóteles, todas as coisas são dotadas de certas potencialidades que lhes são intrínsecas e inseparáveis, potencialidades estas que vão se desenvolvendo ao longo da existência de cada coisa no mundo, dentro das condições adequadas, até que se chegue ao ponto culminante desse processo, que é justamente o seu telos. O telos é, ao mesmo tempo, o ápice e a máxima realização de uma coisa. No caso das coisas que existem em nosso mundo cotidiano, o que ocorre após o atingimento do telos é apenas decadência e destruição da coisa. Conhecer algo, nesse sentido, é conhecer qual é o seu telos e como ela o alcança.
Apenas para dar um exemplo que eu gosto de usar, podemos pensar em uma árvore. A árvore de certa forma já está contida na sementes, mas está apenas como potência, como algo que pode vir a se realizar ou não. A finalidade da semente é germinar e se tornar árvore, espalhando novas sementes ao ambiente. Ela atinge seu telos quando se transforma, efetivamente, em uma árvore frondosa. Com o passar do tempo, ela decai até morrer e se decompor. Quem não sabe que a finalidade da semente é se tornar árvore não sabe realmente o que é uma semente, tampouco o que é uma árvore.
Aristóteles acredita que mais ou menos a mesma lógica se aplica ao ser humano. Assim como os outros entes do mundo, o ser humano também é dotado de propósitos intrínsecos a serem realizados, propósitos estes que habitam nele enquanto potencialidade e que o distingue de outros animais. Isso fica mais claro quando se vê como Aristóteles enxerga a estrutura a alma humana.
No nível mais basilar, existe a alma vegetativa, responsável por manter nossas funções vitais e fazer com que o organismo permaneça funcionando. É uma parte compartilhada com os vegetais (donde o nome). Existe a alma apetitiva, que responde pelos nossos desejos e emoções. É errado pensar que a ética das virtudes aristotélica pretende apagar os desejos. Pelo contrário, os desejos desempenham nela uma função importante. O que ela pretende é nos mostrar quais desejos são bons e em que situação devemos atendê-los. A última parte é a alma racional, que podemos ainda dividir em deliberativa e contemplativa. A parte deliberativa é a que se ocupa de definir como serão nossas ações: o que iremos fazer e como iremos fazer. A parte contemplativa, como o próprio nome diz, não tem a ver diretamente com ações, mas sim com a contemplação do mundo e a percepção das verdades últimas por trás dele.
Viver bem (ou a vida humana boa) nesse sentido, é viver de maneira que realizemos esses nossos propósitos. O estado de ampla e plena realização de nossas finalidades enquanto humanos é aquilo que Aristóteles chama de eudaimonia (normalmente traduzido como felicidade, da qual falaremos mais adiante). No entanto, só somos capazes de fazer isso se nos comportarmos de uma certa forma, se aprendermos a agir de uma maneira que nos leve a esse resultado. Para Aristóteles, o campo do saber que se ocupa em determinar qual o estilo de vida que nos conduz a essa realização é a ética.
Já sabemos, então, que nem todas as formas de vida nos levarão a essa realização. O homem que vive de forma a exercer bem aquelas potencialidades que o tornam humano é, para Aristóteles, o homem virtuoso Vidas voltadas unicamente para o prazer e a lascívia certamente deixam de contemplar alguns de nossos aspectos mais importantes, como o da reflexão racional. Por outro lado, vidas muito voltadas para o interior de si e de renúncia a qualquer tipo de satisfação também tendem a nos tornar insensíveis. Qualquer tipo demasiado de falta ou excesso tende a enfatizar muito algumas dimensões da existência humana e negligenciar outros. É necessário, então, viver de modo que não caiamos nem na falta nem no excesso. Daí porque, em uma primeira análise, Aristóteles dirá que a virtude pode ser concebida como uma disposição de agir, que se coloca como um meio termo entre um excesso e uma falta.
Aristóteles concebe dois tipo de virtudes. O primeiro são as chamadas virtudes de caráter. Essas são aquelas virtudes ligadas diretamente ao nosso modo de agir diante dos acontecimentos da vida. Entre elas estão a coragem, a temperança, a gentileza, etc. São virtudes relacionadas às atitudes tomadas pelas pessoas de acordo com as situações. As virtudes de caráter recebem esse nome porque a presença ou ausência delas nos permite dizer que tipo de pessoa aquele alguém é, que tipo de personalidade ele possui. São virtudes que não se exercem apenas em ocasiões especiais, mas sim nas atividades cotidianas de cada um, sendo praticadas a todo momento.
Mas isto apenas não basta. Uma pessoa verdadeiramente virtuosa precisa também ter a capacidade de analisar uma determinada situação de acordo com as suas circunstâncias próprias. É preciso saber quando se está diante de uma ocasião normal ou uma ocasião anômala. É preciso saber identificar quais os riscos envolvidos. É preciso saber identificar quais são as precauções a serem tomadas. Para um guerreiro, por exemplo, ser corajoso normalmente pode significar não se deixar dominar pelo medo de avistar o inimigo. Mas e se esse mesmo guerreiro se vir incumbido de uma tarefa específica, que ele nunca havia realizado antes, de cujo sucesso depende a vitória ou a derrota de seu povo? Possivelmente, o mero dizer que coragem é meio termo entre covardia e temeridade não seria o bastante. Em suma, é preciso que o indivíduo tenha a capacidade de saber como agir sem ficar limitado a fórmulas ou padrões fechados.
É justamente para cumprir essa função que existem as chamadas virtudes intelectuais. Ao contrário das virtudes de caráter, as virtudes intelectuais estão relacionadas ao modo como o sujeito pensa, organiza seus atos e decide o que irá ou não fazer. De todas as virtudes intelectuais (que envolvem, por exemplo, sabedoria, episteme, técnica, dentre outras), Aristóteles considera que a mais importante seja a prudência. Ser prudente é conseguir, em uma situação real, perceber quais são os fins a serem buscados e qual a melhor forma de fazer isso. Não devemos cometer o erro de misturar prudência com astúcia ou esperteza. Uma pessoa astuta ou esperta é aquela que consegue encontrar os meios adequados para chegar ao objetivo que pretendia. Prudência é isso e muito além. Não basta que a pessoa seja apta a conseguir o que quer. É preciso também que aquilo que ela quer alcançar seja bom, e que os meios para isso também sejam bons. Uma pessoa não pode ser realmente virtuosa sem ser prudente, e o contrário também é verdade.
Uma vez dito tudo isso, também é importante lembrar o velho dito aristotélico de que virtude é produto do hábito. Isso significa que ninguém traz a virtude consigo desde o nascimento, muito menos adquire virtude somente pela aquisição de saber intelectual (algo que normalmente é imputado a Platão). Qualquer pessoa só pode se tornar uma pessoa virtuosa se ela passar por um processo constante de prática, exercício e repetição, como eu disse no começo. É somente após um considerável período, que corresponde a boa parte de nossa juventude, que podemos adquirir os dois tipos de virtude, sendo razoável pensar que adquirimos as virtudes de caráter antes das intelectuais, já que normalmente aprendemos a agir segundo determinados preceitos antes de propriamente desenvolvermos a faculdade de pensamento para tal.
Chegamos agora ao momento das críticas.
Uma coisa que se pode opor à ética das virtudes é que ela seria estruturalmente incompatível com o pluralismo que se tem abertamente nas sociedades pelo menos desde a modernidade. De fato, todos nós sabemos que nos dias de hoje cada pessoa tem uma opinião diferente de como se deve viver, assim como tem um projeto pessoal diferente, tem gostos diferentes, valoriza coisas diferentes, etc. Ora, o desenvolvimento de uma ética das virtudes, pelo menos nos termos que acabo de expor, parece ir de encontro a isso. Com efeito, continua objeção, uma sociedade regida por uma ética das seria uma sociedade que se veria fechada a valorizar um tipo específico de personalidade, com alguns gostos específicos, com algumas escolhas pessoais específicas, etc. Todas as demais formas de vida que fossem desviantes em relação a esse padrão seriam consideradas menos valiosas e não dignas de apreciação. Adotar uma ética das virtudes significa estabelecer de antemão o que é bom e o que é ruim, significa tirar das pessoas o poder de fazerem essa escolha elas mesmas.
A segunda objeção, que no momento acho bastante pertinente, consiste em dizer que o sucesso de uma ética das virtudes depende essencialmente de uma estrutura de comunidade forte. Dito outro modo: só é possível formar um indivíduo virtuoso, da forma como essa ética o concebe, se já existe um grupo forte e coeso de pessoas que vivem segundo esses mesmos padrões. Seria preciso, nesse sentido, que já houvesse se consolidado uma comunidade de pessoas virtuosas, para que elas pudessem orientar aqueles que estão em processo de formação, Um único indivíduo desgarrado que decidisse viver segundo uma ética das virtudes não teria parâmetro algum para saber se está trilhando o caminho certo ou se na verdade está nos rumos do vício. Como nas sociedades modernas para praticamente não haver nenhum grupo humano que atende a esses requisitos, uma proposta de ética das virtudes, ainda que fizesse sentido do ponto de vista racional, seria impraticável.
Terminarei com uma possibilidade de contra-argumentação a essas críticas. Mas isso nada tem a ver com o meu posicionamento pessoal sobre o assunto.
Em seu livro Depois da Virtude, Alasdair MacIntyre nos apresenta uma interessante e instigante proposta de defesa de uma ética das virtudes. MacIntyre acredita que até o surgimento da modernidade, com o iluminismo, o que prevaleceu na antiguidade e no medievo era uma visão de mundo teleológica mais ou menos nos termos que defini ainda há pouco.
Primeiro de matriz helênica, depois embebida de vieses teológicos cristãos, era essa visão teleológica que conferia sentido às expressões morais, como justo, certo, errado, bom, ruim, etc. O que aconteceu foi que o iluminismo, com sua nova proposta de edificar um mundo longe da tradição e da superstição, aboliu essa visão teleológica, em prol de uma visão de mundo mais pautada na ciência e na racionalidade moderna. O problema é o seguinte: se antes da modernidade havia valores morais de certa forma estáveis, consensuais e fortes em orientar o agir e o viver das pessoas, o iluminismo pôs abaixo essa estrutura sem nos deixar nada que pudesse substituí-la.
Aquilo que nos restou, nas palavras de MacIntyre, foi uma moral fragmentada. Foram expressões reconhecidamente morais, como as que citei ainda há pouco, mas sem nenhum tipo de preceito que pudesse nos orientar a como usá-las, ou a ter certeza sobre o que elas significam. Ficamos apenas com algumas intuições sobre o que é o ser humano: o ser humano tem razões e emoções, possui interesses, possui faculdades especiais em relação aos outros animais, etc. Mas tudo isso, segundo MacIntyre, nada mais é do que a maneira como se concebia o ser humano na visão teleológica, antes de ele realizar suas potencialidades. Esses pressupostos correspondem, de outro modo, àquilo que o ser humano é em “estado bruto”, sem ter ainda se tornado virtuoso. No entanto, como a perspectiva moderna abomina a teleologia, e essa teleologia que embasa toda a proposta ética pré-moderna, a modernidade foi obrigada a se contentar com apenas esse fragmento daquela visão, já que a outra parte lhe era inaceitável.
Frente ao vazio deixado pelo projeto avassalador do iluminismo, MacIntyre acredita que nos tornamos emotivistas. Isto é, em nossas sociedades, expressões morais passaram a ser usadas unicamente como expressão de nossas emoções, de nosso agrado ou desagrado em relação aos acontecimentos. E é exatamente por isso que, para MacIntyre, como incapazes de alcançar qualquer consenso quando se trata de questões morais.
A única solução que MacIntyre enxerga é um retorno a um modelo de vida comunitário, em que cada um tem consciência de seu lugar dentro do todo maior que é a comunidade, da qual derivaríamos padrões de excelência para construir quem somos. Seria um retorno, por assim dizer, a uma éticas das virtudes. Essa é uma proposta bastante instigante e provocativa. Talvez falemos sobre ela novamente, em uma outra postagem.

Um comentário:

  1. Iiixi, vou aguardar ansiosamente para o próximo post sobre o MacIntyre. O seu texto tá muito didático, incrível!

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