Dentre
todas as abordagens éticas ocidentais, a ética das virtudes provavelmente é a
mais antiga. Ao lado das éticas do dever e das éticas consequencialistas, ela
hoje disputa adeptos entre os filósofos e conta com fortes defensores. Nesta
postagem, pretendo esclarecer brevemente algumas das principais ideias
envolvidas quando se fala em ética das virtudes. Como a essa doutrina
normalmente se opõem críticas específicas, ao final da postagem farei rápida
menção a duas possíveis linhas de objeção a uma ética baseada em virtudes,
seguida de uma possível defesa feita por um de seus mais importantes defensores
contemporâneos.
Antes
de tudo, é preciso dizer que, diferente das éticas deontológicas e
consequencialistas (ou menos as versões mais comuns dessas duas últimas) a
ética das virtudes não está preocupada exclusivamente com o agir humano. Os
atos humanos importam para ela na medida em que desempenham um papel na
formação da identidade de um todo maior, que é o próprio ser humano. Assim, uma
ética das virtudes está preocupada, em última instância, em prescrever não uma
regra para se distinguir ações boas de ações ruins, mas sim em propor um estilo
de vida completo, um modelo de ser humano.
E
é por esse motivo que essa abordagem ética se situa sempre sobre a questão da
personalidade e do caráter. Não basta que uma pessoa aja da forma certa. É
preciso também que ela tenha agido na hora certa, devido à motivação certa, com
o desejo certo, assim como é preciso que ela tudo isso seja uma constante ao
longo de sua vida. Ninguém é virtuoso por ter agido bem uma única vez, e sim
apenas quando esse agir bem se incorpora à sua identidade e ao seu modo de ser.
A
formulação mais clássica e até hoje mais famosa de ética das virtudes está em
Aristóteles. É verdade que algo nesse sentido já poderia ser encontrado em
Platão, já que para ele a cidade justa era aquela em que as aptidões naturais
de cada um eram cultivadas de modo que cada pessoa ocupasse o nicho social
apropriado para si (seja como filósofo-governante, como protetor da cidade ou
como produtor) tendo como pano de fundo a razão governando as paixões. Mas a
formulação mais completa sobre o que são virtudes, qual seu fundamento e como
se atinge um comportamento virtuoso só foram aparecer nos escritos do famoso
discípulo de Platão. E é por isso que irei me concentrar nele agora.
Um
panorama completo do pensamento de Aristóteles, de modo que eu pudesse situar
onde se encontra a ética dentro dele, é impossível aqui. Então irei me limitar
a fazer algumas considerações sobre sua visão de mundo, que está pressuposta em
sua ética, para logo em seguida passar ao nosso tema principal.
É
lugar comum dizer que Aristóteles vê o mundo de forma teleológica. E o que quer
dizer isso? Quer dizer, em primeiro lugar, que nessa visão tudo aquilo que
existe possui uma certa finalidade, um propósito a ser realizado (telos). Para
ser mais exato, em Aristóteles, todas as coisas são dotadas de certas
potencialidades que lhes são intrínsecas e inseparáveis, potencialidades estas
que vão se desenvolvendo ao longo da existência de cada coisa no mundo, dentro
das condições adequadas, até que se chegue ao ponto culminante desse processo,
que é justamente o seu telos. O telos é, ao mesmo tempo, o ápice e a máxima realização
de uma coisa. No caso das coisas que existem em nosso mundo cotidiano, o que
ocorre após o atingimento do telos é apenas decadência e destruição da coisa.
Conhecer algo, nesse sentido, é conhecer qual é o seu telos e como ela o
alcança.
Apenas
para dar um exemplo que eu gosto de usar, podemos pensar em uma árvore. A
árvore de certa forma já está contida na sementes, mas está apenas como
potência, como algo que pode vir a se realizar ou não. A finalidade da semente é
germinar e se tornar árvore, espalhando novas sementes ao ambiente. Ela atinge
seu telos quando se transforma, efetivamente, em uma árvore frondosa. Com o
passar do tempo, ela decai até morrer e se decompor. Quem não sabe que a
finalidade da semente é se tornar árvore não sabe realmente o que é uma semente,
tampouco o que é uma árvore.
Aristóteles
acredita que mais ou menos a mesma lógica se aplica ao ser humano. Assim como
os outros entes do mundo, o ser humano também é dotado de propósitos intrínsecos
a serem realizados, propósitos estes que habitam nele enquanto potencialidade e
que o distingue de outros animais. Isso fica mais claro quando se vê como
Aristóteles enxerga a estrutura a alma humana.
No
nível mais basilar, existe a alma vegetativa, responsável por manter nossas
funções vitais e fazer com que o organismo permaneça funcionando. É uma parte
compartilhada com os vegetais (donde o nome). Existe a alma apetitiva, que
responde pelos nossos desejos e emoções. É errado pensar que a ética das
virtudes aristotélica pretende apagar os desejos. Pelo contrário, os desejos
desempenham nela uma função importante. O que ela pretende é nos mostrar quais
desejos são bons e em que situação devemos atendê-los. A última parte é a alma
racional, que podemos ainda dividir em deliberativa e contemplativa. A parte
deliberativa é a que se ocupa de definir como serão nossas ações: o que iremos
fazer e como iremos fazer. A parte contemplativa, como o próprio nome diz, não
tem a ver diretamente com ações, mas sim com a contemplação do mundo e a
percepção das verdades últimas por trás dele.
Viver
bem (ou a vida humana boa) nesse sentido, é viver de maneira que realizemos
esses nossos propósitos. O estado de ampla e plena realização de nossas
finalidades enquanto humanos é aquilo que Aristóteles chama de eudaimonia (normalmente traduzido como
felicidade, da qual falaremos mais adiante). No entanto, só somos capazes de
fazer isso se nos comportarmos de uma certa forma, se aprendermos a agir de uma
maneira que nos leve a esse resultado. Para Aristóteles, o campo do saber que
se ocupa em determinar qual o estilo de vida que nos conduz a essa realização é
a ética.
Já
sabemos, então, que nem todas as formas de vida nos levarão a essa realização.
O homem que vive de forma a exercer bem aquelas potencialidades que o tornam
humano é, para Aristóteles, o homem virtuoso Vidas voltadas unicamente para o
prazer e a lascívia certamente deixam de contemplar alguns de nossos aspectos
mais importantes, como o da reflexão racional. Por outro lado, vidas muito
voltadas para o interior de si e de renúncia a qualquer tipo de satisfação
também tendem a nos tornar insensíveis. Qualquer tipo demasiado de falta ou
excesso tende a enfatizar muito algumas dimensões da existência humana e
negligenciar outros. É necessário, então, viver de modo que não caiamos nem na
falta nem no excesso. Daí porque, em uma primeira análise, Aristóteles dirá que
a virtude pode ser concebida como uma disposição de agir, que se coloca como um
meio termo entre um excesso e uma falta.
Aristóteles
concebe dois tipo de virtudes. O primeiro são as chamadas virtudes de caráter. Essas são aquelas virtudes ligadas diretamente
ao nosso modo de agir diante dos acontecimentos da vida. Entre elas estão a
coragem, a temperança, a gentileza, etc. São virtudes relacionadas às atitudes
tomadas pelas pessoas de acordo com as situações. As virtudes de caráter
recebem esse nome porque a presença ou ausência delas nos permite dizer que
tipo de pessoa aquele alguém é, que tipo de personalidade ele possui. São
virtudes que não se exercem apenas em ocasiões especiais, mas sim nas
atividades cotidianas de cada um, sendo praticadas a todo momento.
Mas
isto apenas não basta. Uma pessoa verdadeiramente virtuosa precisa também ter a
capacidade de analisar uma determinada situação de acordo com as suas
circunstâncias próprias. É preciso saber quando se está diante de uma ocasião
normal ou uma ocasião anômala. É preciso saber identificar quais os riscos
envolvidos. É preciso saber identificar quais são as precauções a serem
tomadas. Para um guerreiro, por exemplo, ser corajoso normalmente pode
significar não se deixar dominar pelo medo de avistar o inimigo. Mas e se esse
mesmo guerreiro se vir incumbido de uma tarefa específica, que ele nunca havia
realizado antes, de cujo sucesso depende a vitória ou a derrota de seu povo?
Possivelmente, o mero dizer que coragem é meio termo entre covardia e
temeridade não seria o bastante. Em suma, é preciso que o indivíduo tenha a capacidade
de saber como agir sem ficar limitado a fórmulas ou padrões fechados.
É
justamente para cumprir essa função que existem as chamadas virtudes intelectuais. Ao contrário das
virtudes de caráter, as virtudes intelectuais estão relacionadas ao modo como o
sujeito pensa, organiza seus atos e decide o que irá ou não fazer. De todas as
virtudes intelectuais (que envolvem, por exemplo, sabedoria, episteme, técnica,
dentre outras), Aristóteles considera que a mais importante seja a prudência. Ser
prudente é conseguir, em uma situação real, perceber quais são os fins a serem
buscados e qual a melhor forma de fazer isso. Não devemos cometer o erro de
misturar prudência com astúcia ou esperteza. Uma pessoa astuta ou esperta é
aquela que consegue encontrar os meios adequados para chegar ao objetivo que
pretendia. Prudência é isso e muito além. Não basta que a pessoa seja apta a
conseguir o que quer. É preciso também que aquilo que ela quer alcançar seja
bom, e que os meios para isso também sejam bons. Uma pessoa não pode ser
realmente virtuosa sem ser prudente, e o contrário também é verdade.
Uma
vez dito tudo isso, também é importante lembrar o velho dito aristotélico de
que virtude é produto do hábito. Isso significa que ninguém traz a virtude
consigo desde o nascimento, muito menos adquire virtude somente pela aquisição
de saber intelectual (algo que normalmente é imputado a Platão). Qualquer
pessoa só pode se tornar uma pessoa virtuosa se ela passar por um processo
constante de prática, exercício e repetição, como eu disse no começo. É somente
após um considerável período, que corresponde a boa parte de nossa juventude,
que podemos adquirir os dois tipos de virtude, sendo razoável pensar que
adquirimos as virtudes de caráter antes das intelectuais, já que normalmente
aprendemos a agir segundo determinados preceitos antes de propriamente
desenvolvermos a faculdade de pensamento para tal.
Chegamos
agora ao momento das críticas.
Uma
coisa que se pode opor à ética das virtudes é que ela seria estruturalmente
incompatível com o pluralismo que se tem abertamente nas sociedades pelo menos
desde a modernidade. De fato, todos nós sabemos que nos dias de hoje cada
pessoa tem uma opinião diferente de como se deve viver, assim como tem um
projeto pessoal diferente, tem gostos diferentes, valoriza coisas diferentes,
etc. Ora, o desenvolvimento de uma ética das virtudes, pelo menos nos termos
que acabo de expor, parece ir de encontro a isso. Com efeito, continua objeção,
uma sociedade regida por uma ética das seria uma sociedade que se veria fechada
a valorizar um tipo específico de personalidade, com alguns gostos específicos,
com algumas escolhas pessoais específicas, etc. Todas as demais formas de vida
que fossem desviantes em relação a esse padrão seriam consideradas menos
valiosas e não dignas de apreciação. Adotar uma ética das virtudes significa
estabelecer de antemão o que é bom e o que é ruim, significa tirar das pessoas
o poder de fazerem essa escolha elas mesmas.
A
segunda objeção, que no momento acho bastante pertinente, consiste em dizer que
o sucesso de uma ética das virtudes depende essencialmente de uma estrutura de
comunidade forte. Dito outro modo: só é possível formar um indivíduo virtuoso,
da forma como essa ética o concebe, se já existe um grupo forte e coeso de
pessoas que vivem segundo esses mesmos padrões. Seria preciso, nesse sentido,
que já houvesse se consolidado uma comunidade de pessoas virtuosas, para que
elas pudessem orientar aqueles que estão em processo de formação, Um único
indivíduo desgarrado que decidisse viver segundo uma ética das virtudes não
teria parâmetro algum para saber se está trilhando o caminho certo ou se na verdade
está nos rumos do vício. Como nas sociedades modernas para praticamente não
haver nenhum grupo humano que atende a esses requisitos, uma proposta de ética
das virtudes, ainda que fizesse sentido do ponto de vista racional, seria
impraticável.
Terminarei
com uma possibilidade de contra-argumentação a essas críticas. Mas isso nada
tem a ver com o meu posicionamento pessoal sobre o assunto.
Em
seu livro Depois da Virtude, Alasdair MacIntyre nos apresenta uma interessante
e instigante proposta de defesa de uma ética das virtudes. MacIntyre acredita
que até o surgimento da modernidade, com o iluminismo, o que prevaleceu na
antiguidade e no medievo era uma visão de mundo teleológica mais ou menos nos
termos que defini ainda há pouco.
Primeiro
de matriz helênica, depois embebida de vieses teológicos cristãos, era essa
visão teleológica que conferia sentido às expressões morais, como justo, certo,
errado, bom, ruim, etc. O que aconteceu foi que o iluminismo, com sua nova
proposta de edificar um mundo longe da tradição e da superstição, aboliu essa
visão teleológica, em prol de uma visão de mundo mais pautada na ciência e na
racionalidade moderna. O problema é o seguinte: se antes da modernidade havia
valores morais de certa forma estáveis, consensuais e fortes em orientar o agir
e o viver das pessoas, o iluminismo pôs abaixo essa estrutura sem nos deixar
nada que pudesse substituí-la.
Aquilo
que nos restou, nas palavras de MacIntyre, foi uma moral fragmentada. Foram
expressões reconhecidamente morais, como as que citei ainda há pouco, mas sem
nenhum tipo de preceito que pudesse nos orientar a como usá-las, ou a ter
certeza sobre o que elas significam. Ficamos apenas com algumas intuições sobre
o que é o ser humano: o ser humano tem razões e emoções, possui interesses,
possui faculdades especiais em relação aos outros animais, etc. Mas tudo isso,
segundo MacIntyre, nada mais é do que a maneira como se concebia o ser humano
na visão teleológica, antes de ele realizar suas potencialidades. Esses
pressupostos correspondem, de outro modo, àquilo que o ser humano é em “estado
bruto”, sem ter ainda se tornado virtuoso. No entanto, como a perspectiva
moderna abomina a teleologia, e essa teleologia que embasa toda a proposta
ética pré-moderna, a modernidade foi obrigada a se contentar com apenas esse
fragmento daquela visão, já que a outra parte lhe era inaceitável.
Frente
ao vazio deixado pelo projeto avassalador do iluminismo, MacIntyre acredita que
nos tornamos emotivistas. Isto é, em
nossas sociedades, expressões morais passaram a ser usadas unicamente como
expressão de nossas emoções, de nosso agrado ou desagrado em relação aos
acontecimentos. E é exatamente por isso que, para MacIntyre, como incapazes de
alcançar qualquer consenso quando se trata de questões morais.
A
única solução que MacIntyre enxerga é um retorno a um modelo de vida
comunitário, em que cada um tem consciência de seu lugar dentro do todo maior
que é a comunidade, da qual derivaríamos padrões de excelência para construir
quem somos. Seria um retorno, por assim dizer, a uma éticas das virtudes. Essa
é uma proposta bastante instigante e provocativa. Talvez falemos sobre ela
novamente, em uma outra postagem.
Iiixi, vou aguardar ansiosamente para o próximo post sobre o MacIntyre. O seu texto tá muito didático, incrível!
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