Hoje
falaremos um pouco sobre as ideias desenvolvidas pelo pensador canadense
Charles Taylor. Seu nome é conhecido sobretudo no campo das teorias da justiça,
em que Taylor, ao lado de autores como Michael Walzer, Michael Sandel e
Alasdair MacIntyre, é enquadrado dentro do grupo de críticos ao liberalismo
igualitário de John Rawls chamado comunitarismo. As principais contribuições de
Taylor são no campo da ética e da filosofia política. Embora seja verdade que
sua principal obra é “As Fontes do Self”, ela não será abordada aqui pois ainda
não tive a oportunidade de lê-la. Em vez disso, irei me basear em dois de seus
livros que já li- “Hegel e a Sociedade Moderna” e “A Ética da Autenticidade”-
para que possamos discutir, primeiro, um pouco sobre como esse filósofo encara
o mundo moderno e, em seguida, qual o papel que ele atribui ao reconhecimento.
![]() |
| Charles Taylor (1931-) |
Assim,
partindo daquilo que está dito em “A Ética da Autenticidade”, Taylor identifica
três aspectos da sociedade moderna considerados problemático. São três aspectos
que, em relação ao mundo antigo e ao mundo medieval, são novidades, mas que ao
mesmo tempo contam com enaltecedores, de um lado, e críticos ferrenhos, do
outro. Posto que Taylor enfatiza o primeiro e o considera que os outros dois em
última análise derivam dele, também irei enfocar sobre o primeiro aspecto, para
que depois possamos passar à questão do reconhecimento.
O
primeiro aspecto é o chamado individualismo. Por individualismo Taylor pretende
expressar o traço marcante das sociedades modernas que consiste na afirmação e
na primazia da vida individual. Como sabemos, no medievo, o estilo de vida e as
funções desempenhadas pelas pessoas era definido quase que completamente pelo
grupo em que ela havia nascido. Quem havia nascido servo estava quase que definitivamente
condenado a viver como servo até a morte, assim como os descendentes dos
senhores feudais e monarcas praticamente não tinham escolha a não ser levarem
uma vida de nobreza e um dia ocuparem os postos deixados por seus ascendentes.
Aquilo que podíamos ser ou fazer não era o resultado de uma escolha pessoal,
mas sim basicamente um determinação advinda da tradição e da comunidade.
No
mundo moderno, contudo, o que existe é quase que o perfeito oposto disso. Em
nossas intuições cotidianas, parece não apenas estranho, como até mesmo
condenável, que uma pessoa tenha sua vida toda traçada ou a permita ser traçada
por algo ou alguém que não ela própria. Com efeito, só quem está autorizado a
dizer o que é bom para mim sou eu próprio. Cada qual escolhe como pretende
viver e escolhe por si quais objetivos deseja perseguir e quais coisas quer
valorizar, quais crenças pretende seguir e qual identidade quer adotar. Em vez
de ser uma sociedade em que o indivíduos se guiam por uma suposta ordem natural
que lhes impões papéis e deveres pelos quais ninguém optou, a sociedade moderna
é aquela em que cada um está em busca dos propósitos que escolheu para si.
O
segundo aspecto é a razão instrumental. Uma vez que não acreditamos mais, como
disse, em uma ordem natural ou leis naturais que determinam o quem devemos ser
o que devemos fazer, as coisas do mundo também perdem qualquer propósito
intrínseco. Os animais, a flora, os recursos naturais e outros elementos do
mundo externos ao ser humano, na visão moderna, já não possuem nenhuma
finalidade, a não ser aquela que nós próprios dermos a eles. Dizer que as
coisas não servem a um fim natural/ intrínseco, nesse sentido, significa dizer
que podemos usá-las da forma como bem entendermos. Significa dizer que elas são
utensílios à disposição da humanidade para fazer com elas o que se achar mais
adequado.
O
que Taylor chama de razão instrumental, aqui, é o novo tipo de racionalidade
que surge uma vez que se passou por esse processo de desencantamento do mundo.
Se as coisas estão ao dispor da vontade humana, tudo pode ser reorganizado
utilizado de modo a produzir os resultados que queremos. Afastada a ideia
cristã de que a usura é pecaminosa, por exemplo, o mercado financeiro pôde se expandir
até se tornar o grande sistema de trocas e vendas, lucros e negociações que é
hoje. As coisas já não são mais usadas de modo a cumprir aquilo que as leis
divinas ou as regras da tradição estabelecem, mas sim de uma forma que elas
possam gerar o máximo de benefícios com o mínimo de custos, por isso o nome
razão instrumental.
O
problema é que a busca cega pela produtividade e pela eficiência acaba por
negligenciar questões que de outra forma consideraríamos como importantes, como
por exemplo meio-ambiente e a desigualdade social. Na modernidade, aquilo que
não está de acordo com a lógica dos lucros e do custo benefício ou é deixado de
lado ou é sacrificado em nome do crescimento econômico. A razão instrumental
engole todos os outros valores que não sejam aqueles que ela própria endossa.
O
terceiro aspecto é a perda da liberdade. Em um mundo em que os indivíduos possuem
forte tendência a serem autocentrados e em que o funcionamento das instituições
é governado pela razão instrumental, há pelo menos duas maneiras como nós todos
temos nossas liberdades diminuídas. A primeira é que as circunstâncias ao nosso
redor não raramente nos obrigam a tomar escolhas que de outra forma não
tomaríamos. Para usar um exemplo do próprio Taylor, o fato de viver em uma
sociedade urbanizada e super complexa faz com que eu não tenha outra escolha senão
adquirir um automóvel próprio para atender a meus compromissos, ainda que esse
não fosse meu desejo.
Mas
existe ainda uma outra maneira, muito mais sutil e por isso mais perigoso, de
como nossas liberdades no contexto moderno são cerceadas. O que acontece é o
seguinte: por estar imerso uma cultura autointeressada, o indivíduo se preocupa
cada vez mais com aquilo que diz respeito à sua vida privada, e cada vez menos
com aquilo que não diz respeito a ela. Da forma como ele vê as coisas, aqueles
assuntos que não afetam o seu plano de vida, ou pelo menos que não o afetam de
modo direto e evidente, são menos importantes e menos dignos de atenção. Dentre
esses assuntos está a política, ou seja, o processo de decisões que determina o
rumo que a sociedade deve tomar.
Uma
vez que a política nos parece mais e mais irrelevante, mais e mais longe
daquilo que realmente nos interessa (nossa concepção de bem), maior é a
facilidade com que nós entregamos o poder político na mão de pessoas designadas
para essa função. Nos regimes democráticos contemporâneos, essas pessoas são os
representantes eleitos. O que se observa na prática, segundo Taylor, é que os cidadãos
se desconectam da esfera pública para se concentrar em seus projetos pessoais
de tal forma que quem de fato tem nas mãos o poder de decidir não são eles, e
assim aqueles que foram escolhidos para os cargos. Trata-se de uma situação, em
que o único momento de verdadeira influência do povo sobre a esfera pública são
nas eleições. E de resto ela fica praticamente entregue àqueles agentes
políticos e aos burocratas. No entanto, como a esfera pública impacta
diretamente sobre a vida privada, ao perdermos o controle sobre ela, perdemos
junto nossa capacidade de decidir em que tipo de sociedade queremos viver. Em
outras palavras, perdemos, também, parte de nossa liberdade.
Nesse
ponto, é preciso tomar cuidado para evitar maus entendidos. Taylor insiste
bastante que não devemos toma-los por um mero detrator da modernidade ou alguém
que enxerga nela nada mais do que problemas e decadência. Ao contrário, o
objetivo do seu projeto teórico é justamente trazer à luz o que está por trás
de cada um desses fenômenos, quais são os ideias que os movimentam e como
podemos realiza-los adequadamente sem gerar aquelas condições nefastas que
acabamos de descrever.
Assim,
no que se refere ao individualismo moderno, Taylor dirá que ele não pode ser
reduzido, como pensam muitos anti-modernos, a um mero hedonismo, egoísmo ou
busca cega pelos desejos. Muito mais profundo que isso, diz Taylor, no cerne do
individualismo está um ideal de autenticidade.
A ideia fundamental de que “você deve ser você mesmo”. O motivo pelo qual cada
um formula seu plano de vida não é simplesmente que cada um anseia por prazer e
satisfação, mas sim porque no fundo e nossa consciência se encontra a ideia de
que precisamos ser fiéis a nós mesmos. Em nossa forma moderna de pensar, a vida
que tem valor é a vida autêntica, a vida pautada na autorrealização. Com
efeito, da forma como vemos o mundo, parece estranho ou até mesmo errado que alguém
viva sua vida segundo o que o outro lhe diz, ou segundo o que uma autoridade
lhe comanda.
Segundo
Taylor, o ideal de autenticidade não surgiu repentinamente no imaginário
moderno. Na verdade, ele é o resultado de um longo processo de sedimentação de
ideias que vem desde a Antiguidade Tardia, contando com pensadores do mais alto
calibre. Agostinho, e a ideia de que o encontro com nossa interioridade é o
caminho para a Verdade. Rousseau, e a ideia de que uma vida sob as próprias
escolhas é a única vida digna do ser humano. Kant, e a ideia de que só somos
livres quando damos a nós próprios a lei que iremos seguir. Herder, e a ideia
de que cada ser humano, assim como cada grupo, é uma entidade única e
irrepetível cuja identidade se expressa no mundo exterior.
E
a questão do reconhecimento, onde se encaixa? O ponto alto da argumentação de
Taylor, a meu ver, é mostrar que a realização do ideal de autenticidade não é
algo que dependa unicamente do indivíduo, mas principalmente do reconhecimento que ele recebe dos
outros. Para ser mais exato, Taylor pretende nos convencer de que a nossa própria
identidade é construída e consolidada devido a relação de reconhecimento
intersubjetivo. Eu não sou quem sou apenas porque escolho ser assim, mas também
porque os outros me reconhecem assim. É dos laços da comunidade que advém a
identidade, e não o contrário.
Para
sair dos termos abstratos, tomemos um exemplo concreto. Imaginemos um certo
homem que seja dito como um bom professor universitário. Vejamos. A partir do
nosso conhecimento cotidiano, dizer que ele é um bom professor geralmente
implica que os discentes tecem comentários positivos a respeito de suas aulas.
Também significa dizer que a instituição à qual ele está vinculada reconhece o
seu trabalho e considera que ele cumpre os padrões exigidos. Quer dizer, além
disso, que ele foi considerado apto ao ofício pelo estágio probatório. Significa,
ainda, que a comunidade científica vê valor na sua produção.
Como
podemos ver, o fato de ser um professor é algo que depende, sim, do que ele faz
e de como age, mas depende primordialmente, do modo como ele é visto e
considerado pelos outros. São as atitudes dos outros, ao elogiá-lo, comentar
seu trabalho, aprovar sua produção, etc, que o constituem enquanto um professor
que podemos chamar de bom. O que Taylor quer mostrar é que com todos os
aspectos de nossa identidade acontece a mesma coisa. Ser pai, amigo, irmão, empregado,
presidente, par romântico, rival, inimigo, e tudo o mais que nos define está
invariavelmente ligado ao reconhecimento que os outros nos dão. Se o indivíduo
autêntico é aquele caracterizado por ser livre, independente, dono de si e bem
sucedido, ele só pode ser tudo isso porque os outros assim o reconhecem. Eu só
sou livre e autônomo porque vivo e fui criado em um ambiente que faz com que eu
veja a mim mesmo assim
É
isso que Taylor quer dizer quando diz a identidade humana tem um caráter
dialógico. Dialógico aqui quer dizer que cada elemento que compõe essa
identidade sempre diz respeito a algo da comunidade a que esse indivíduo
pertence. Para exemplificar, na Idade Média, saber quem uma pessoa era
implicava saber qual sua família de origem, qual a profissão de seus pais e
onde ela havia nascido. No contexto moderno, diferentemente, saber quem uma
pessoa é envolve saber qual seu plano de vida pessoal, quais suas preferências,
qual sua ocupação e a qual classe ela pertence. As escolhas feitas por alguém
podem, é verdade, influenciar fortemente no quanto de recursos esse alguém
terá, mas jamais poderá influenciar o fato de que a posse ou ausência desses
recursos seja um fator definidor da posição social.
Por
isso que na modernidade, o reconhecimento, como nunca antes na história, passa
a ser um problema, isto é, como uma questão a ser pensada. Se o reconhecimento
já não é mais conferido a partir de um critério fixo (o estamento de origem),
ele agora precisa ser conquistado. Contudo, se, como vimos, o reconhecimento
depende invariavelmente dos outros, o indivíduo ou o grupo, isoladamente, não é
capaz de determinar seu sucesso ou fracasso ou obtê-lo.
A
consequência direta disso é que toda negação de reconhecimento é sempre também
uma negação da identidade. Toda vez que humilhamos, constrangemos ou impedimos
alguém de manifestar seu jeito de ser, estamos negando a ela sua própria
identidade. Se o reconhecimento é o que constrói a identidade, é a falta dele o
que a torna vulnerável. Assim, incutir em outrem uma imagem depreciada ou
negativa de si, como alguém de menor valor e menos capaz é talvez a forma mais
eficaz de manter uma pessoa sob opressão.
A
mesma lógica vale para grupos. Todos aqueles grupos cujas práticas e formas de
vida são sistematicamente proibidas, malvistas, proscritas e desconsideradas,
ou até mesmo perseguidas e caçadas, sofre um constante atentado contra sua
própria identidade. Isso possui uma consequência importantíssima para o campo
da política. A saber, sempre que a instituições combatem ou reprimem uma
determinada prática coletiva, elas estão negando reconhecimento ao grupo de
origem daquela prática, o que significa, como vimos, vulnerar a sua identidade.
É o que acontece, por exemplo, quando uma sociedade obriga indígenas a trocarem
suas vestimentas tradicionais pelas roupas ocidentais. Ou quando obriga uma
comunidade religiosa a abandonar seus ritos que envolvem sacrifício de animais.
Toda vez que algo assim ocorre, para Taylor, o que está acontecendo é uma
tentativa de imposição de um modo de vida sobre outro, de uma forma de existir
e ver o mundo sobre outra, ainda que para nós possa parecer como sendo apenas a
coisa mais certa e racional a fazer.
Politicamente
falando, essa questão do reconhecimento, em Taylor, representa uma lição que
precisa ser absorvida pelo liberalismo. Se uma sociedade liberal pretende ser
aquela em que pode haver pluralidade, isso imediatamente exclui qualquer forma
de domesticação ou adaptação forçada de grupos não liberais que existam dentro
dela. A bem da verdade, o liberalismo, em suas raízes, é ele próprio uma
cultura, uma forma de decidir quais coisas possuem valor e qual a vida boa a
ser vivida.
É
uma concepção dotada de seus méritos, como admite o próprio Taylor, mas que
precisa estar atenta para seus próprios limites. No momento em que sejam
implementadas práticas como aquelas que citamos, ou outras à maneira da
colonização, o que se tem é exatamente o tipo de dominação e imposição que o
próprio liberalismo havia se proposto a combater. Só que uma versão
etnocêntrica e, do ponto de vista de quem está acostumado a sociedades liberais,
travestida de legitimidade.
A
melhor saída seria, então adotar uma política que permita dentro do Estado
formas de vida que não liberais, em vez de uma política de uniformização da
população interna segundo os mesmos parâmetros. Ou, para usar os termos de
Taylor, uma política do reconhecimento no lugar de uma política da igualdade. Dado
o que se disse sobre o reconhecimento, a opção política moralmente mais
responsável de governar seria entender que, dentro do mesmo território, há uma pluralidade
de culturas que demandam respeito. Em outras palavras, seria uma sociedade
multicultural.

Nenhum comentário:
Postar um comentário